A coisa mais fantástica a teu respeito é teres compreendido como mais ninguém que não sou daqui e tratado de me dar um lugar fora do mundo, uma espécie de refúgio onde eu tenho, acima de tudo, a segurança da certeza de saber que nada nem ninguém jamais me poderá achar. Por mais que queira. Por muito que me procure.
Chegados de mais uma viagem. Desta vez foi tempo demais. Saudades de casa. Reparámos que alguém andou a usar a casinha pequena ao fundo da quinta, que erguemos junto ao chopo da sombra generosa. Acho graça à naturalidade com que reages, por oposição à minha indignada sensação de devassa. Como se fosse normal, como se não fizesse mal nenhum, como se não tivesse qualquer importância que alguém se servisse das nossas coisas durante a ausência. Sento-me no alpendre das traseiras, aquele que fica do lado da cozinha, e ponho-me a pensar nisso. Queria ter esse desapego, essa espécie de 'fair-play' com os humanos e com a vida. Levaram o meu livro da Duras e a caixa de tabaco que costumavas guardar por lá, para não teres que atravessar a quinta toda até casa, a cada vez que te apetecia fumar. «Alguém que não tinha o que ler!...» concluiste. «Alguém que não devia ter tabaco!...» disseste sempre no mesmo tom imperturbável de quem acha tudo aceitável e compreensível. E eu aos pinotes com a audácia. Não sou igual a ti, nem planeio vir a ser. Simplesmente te acho graça, ou precisamente por isso te ache tanta, tanta graça. Gosto dos radicais opostos e dos absolutos inconfundíveis. Agora aqui, por exemplo, passando o episódio mentalmente em revista, dou comigo a sorrir com a intrínseca benevolência que é tão tua: «Se levaram mais alguma coisa é porque seguramente lhes fazia mais falta a eles do que a nós».
Não tenciono – já disse – imitar-te o afã. Faço somente por aprender alguma coisa com tudo o que não sou eu nem nunca poderá vir a ser meu: única forma afinal disponível para me experimentar ao menos um bocadinho mais do que aquilo que verdadeiramente sou.
Houve uma invasão de pulgas cá em casa. Os entendidos desvalorizam e dizem que este ano é ano de pulgas, que de vez em quando acontece e é assim. Pode ser que tenham razão, mas a tranquilidade dessa sabedoria pouco ou nada serviu para me serenar o desespero de ver a casa minada pela epidemia. Tem sido um caso sério para nos vermos livres da praga. O desassossego dos animais e a minha impotência para lhes exterminar o flagelo de forma eficaz aguçou-me a impaciência e a irritabilidade.
O insólito obrigou a várias mudanças na rotina e, acima de tudo a algumas alterações de emergência, a começar por retirar as crianças cá de casa, sobretudo na fase em que os animais foram submetidos a uma desparasitação extraordinária e a casa desinfestada.
Por mais que riam e me repitam que "é ano de pulgas" e que "de vez em quando acontece", a sensação de repugnância não me tem largado.
Hoje, pela primeira vez, os resultados começaram a sentir-se e os animais dormem, enfim mais calmos.
A casa de Lisboa fica num recanto tranquilo da cidade, onde o frenesim urbano tem, ainda assim, passado contido e longe das grandes euforias das metrópoles esfaimadas de civilização. Neste bairro ainda há quem conheça o jornal que costumamos ler, o separe e guarde todas as manhãs. Ainda há mercearias, talhos e frutarias, ainda há drogarias e sapateiros. As pessoas tratam-se pelo nome e conhecem os vizinhos, encontram-se à mesa dos cafés e leitarias e há avôs com netos a brincar e conversar nos bancos do jardim. Tenho a certeza absoluta que esse é afinal o grande truque que, de alguma forma, ainda me permite reconhecer na Cidade-Triste traços da cidade que costumava ser do meu amor e suportar os dias que, cada vez mais de vez em quando, tenho que cá passar.
Chuvisca em Lisboa. De manhã à noite. Como se Lisboa fosse Londres ou fosse o Porto. Há quatro dias seguidos que não vejo o Sol e só muito de vez em quando a sua silhueta iluminada se deixa adivinhar por detrás da camada espessa de nuvens. Ontem liguei para a quinta e confessei que estava a ressacar com tamanha privação solar.
Onde quer que entre, da farmácia à tabacaria as pessoas ficam especadas a olhar para mim, por causa da cor bronzeada da pele. Reparo que basta isso para fazer de mim um ser de outro planeta. Às vezes, o detalhe é o bastante para suscitar logo à cabeça uma espécie de antipatia mal velada. Devem ficar a achar que sou um bocado "tiazoca" e que, das duas três, ou passo horas no solário ou desbarato dinheiro em viagens para as praias de Cuba ou da Tailândia, o que em plena época de crise vem redundar numa indignação igual. Este tipo de preconceito é, aliás, muito frequente. Tanto que várias vezes sinto vontade de perguntar às pessoas se ainda guardam memória de Camões que, para falar de Portugal, aludia à "ilustre praia lusitana", ou se simplesmente nunca ouviram a expressão "neste jardim à beira-mar plantado". É que, a partir do fim dos anos 90, todos parecem estar convencidos que por cá não há costa, nem mar, nem praia, nem Sol. O equívoco é generalizado. Dos ilustres anónimos que calham a passar os olhos por nós aos simples conhecidos e aos amigos, aquilo que imediatamente se segue o encontro é a bendita frase: «tão queimadinha!... em que país é que estiveste?», como se por cá não existissem lugares sadios onde seja possível apanhar cores de saúde e fosse obrigatório e imprescindível ter que apanhar um avião para destinos mais exóticos.
Muitas vezes, com os meus amigos das ondas, comentamos esta presunção nacional que contaminou os portugueses e os convenceu que o Sol dos outros é que é bom. Alguns deles riem a bom rir deste deslumbre português que faz as pessoas empenharem a alma, contraírem empréstimos bancários e viver o resto dos meses a apertar o cinto só pelo prazer de dizer que viajaram para aqui ou para ali. No fim, e como o dinheiro não lhes chega para mais, tem que se contentar com oito dias de praia quando podiam ter praticamente um ano inteiro de areia e mar, com tanta praia deslumbrante mesmo aqui à mão. Mas enfim!... Cada um sabe das opções que faz. Eu, por mim, creio apenas que se amassem assim tanto o mar fariam as coisas de maneira a poder estar perto dele o maior número de dias possível.
A primeiríssima coisa que salta à vista, depois do frio e do ambiente sombrio da Cidade-Triste , é o rosto fechado dos outros. Isso e a irritabilidade que percorre o que dizem ou esboçam, como se tudo o que trazem morto por dentro lhe bailásse à flor-da-pele, transmutado numa alquimía altamente tóxica e perigosamente radiactiva. Para onde quer que olhe, seja quem for que me deite a observar, as pessoas parecem sempre barris de pólvora prestes a explodir. Exasperadas e agressivas, causam a impressão de que a mínima acendalha as fará explodir. Já houve tempos em que Lisboa não me parecia de todo uma cidade assim ou, pelo menos, não me causava uma impressão assim. Porém, hoje em dia, por mais que me esforce para a captar de outra forma, é sempre assim que me chega: esquizóide e hostil, histérica e rude. Como se tivesse perdido os modos junto com o Norte, ou nunca os tivesse verdadeiramente tido, a não ser nos meus sonhos. Os de antigamente. Da infância e da adolescência. Quando a olhava reflectida, talvez, à luz das histórias que sobre ela cresci a ouvir contar e aprendi a amar. Quando era para mim um labirínto ancestral de becos, doçuras e tradições, Cidade-Encantada-e-Encantadora, igualzinha à mais belas das princesas mouras que o Tejo viu virem deitar-se ao correr das suas margens.
Hoje, Lisboa é simplesmente um afecto que trago desarrumado, algures entre o amor que ainda lhe tenho, por entre "as brumas da memória" recente, e o susto crescente com que me espanta espavorida para bem longe da feia face com que me olha.
De regresso à casa de Lisboa, por uns dias. Assim que entro a cidade tenho a bizarra sensação de ter chegado a outro país sem, todavia, ter sequer passado alguma fronteira. Na atmosfera pesa um cordame de nuvens carregadas e ameaçadoras. Faz muito frio, quer de dia, quer de noite. Descubro, contrariada, que por aqui o tempo é só uma amálgama de cinzentos densos, pesado e tristonho, quase depressivo de tão monótono e pardacento. Há uma humidade doentia colada aos prédios e às calçadas, empregnada em tudo. É como se aqui a Primavera ainda não tivesse chegado.
Qualquer coisa me oprime logo ao primeiro relance de civilização que me cerca. Que diferença abissal dos cenários de onde venho! Olho e torno a olhar e não há verdes, nem flores a despontar bravias à passagem. Não se ouvem pássaros. Não se ouvem vozes de pessoas. Só se ouvem pessoas mudas ou pessoas a berrar insultos umas para as outras. Também reparo que não cheira a nada. Quanto muito a gasolina queimada e às almas amorfas que se movimentam sem nenhuma vontade, de um lado para o outro, como quem avança o pé sem outra direcção a não ser aquela que "tem que ser".
Para variar arrependo-me de voltar a arrimar na cidade logo aos primeiros minutos que nela passo. Sinto uma tentação enorme de dar meia-volta e sair pelo mesmo caminho por que entrei. Revejo mentalmente as coisas inadiáveis para fazer que me trouxeram cá na esperança de descobrir que podem perfeitamente ficar para outra altura. Mas não podem ficar. Infelizmente, não podem mesmo ficar. Aliás, eu deveria saber que é só mesmo porque se trata de coisas que não podem esperar que aqui estou agora: de regresso. De outra forma jamais me teria arrancado do Paraíso para voltar a me vir afogar aqui. E, enquanto penso tudo isto, vou-me dando conta de que quanto mais tempo passo longe delas, mais intoleráveis e sufocantes me parecem.
Temos ido à praia regularmente. As correntes que chegam sopradas de norte podem ver-se a raiar a superfície das ondas em matizes de verdes mais anilados. A água é ainda muito fria para mais que um mergulho rápido, mas deitados na areia o Sol consegue abrasar por longas horas.Nos últimos dias, suponho que derivado à época de férias escolares, encontram-se na praia algumas famílias. Com elas chegou o desassossego das pancadas ocas de raquetas. Habituada à tranquilidade do areal vazio, estranho o movimento e sou frequentemente acometida por uma irritação que me custa cada vez mais reprimir. Apetece-me interditar esta gente ruidosa das praias, com um sentimnto (admito!) de alguma prepotência, como se este lugar fosse mais meu do que deles e sobre ele me assistise um qualquer direito de primazia. Não é bonito, eu sei. Nem democrático. Mas não consigo evitar. Esta tarde, por exemplo, fui arrancada de um torpor que me estava a saber pela vida, ao som de uma banda sonora em que só entravam o restolhar do vento, os gritos das gaivotas e o mar em fundo, por um pai às raquetadas com uma filha adolescente que, ainda por cima, assobiava sempre o mesmo verso de uma canção dos Abba, estafada pelo 'Mamma MIa'.
Descobrimos uma quinta próxima que tem vacas e vende leite e nos vende vasilhas com leite acabado de ordenhar. Aos poucos vou começando também a aprender a identificar as árvores de fruto que não pertencem a ninguém ou crescem e dão fruto ao Deus-dará em propriedades votadas ao esquecimento e abandono. De vez em quando passo por lá e vou reparando nos ritmos de amadurecimento das colheitas. Hoje, por exemplo, colhi as primeiras nespras. Mais adiante, colhi alguns figos ,maduros que deixei a secar, por graça, no parapeito do caramachão. Começo a habituar-me aos sabores da terra e o meu paladar está a tornar-se mais exigente e caprichoso. Noto isso quando compro legumes de supermercado e me parecem depois ter sempre um qualquer defeito quando chegam ao prato. É engraçado, isso!...
Se há um ano atrás me dissessem que haveria de colher frutos das árvores e apanhar legumes no campo, diria que só por milagre distinguiria um molho de espinafres. Agora, porém, saio orgulhosamente com esta enorme alcofa colorida que trouxe do México e acho a coisa mais divertida do mundo!....
De muitos anos de dança, houve tentações que me ficaram. Percebo-o, sobretudo, quando estou mais absorta e, em especial, quando calho a ficar absorta em qualquer lugar onde haja amplitude. Nessas ocasiões, dou por mim a exercitar o movimento como outrora, como se esse registo subcutâneo estivesse impresso e automatizado no meu corpo. Mesmo que passe uma temporada considerável sem o executar, acontece que rapidamente ossos, tendões e músculos cedem. E se no começo flexibilidade, amplitude e elevação não saem com a facilidade que era usual, em pouco tempo vão ganhando distensão e elasticidade, até ficarem muito próximos do ponto que atingiam quando o treino era regular e constante.
Sempre me surpreende a naturalidade com que a memória do corpo o faz ceder e empurrar os limites para mais e mais adiante. Hoje voltou a acontecer-me na praia: primeiro a perna sobe a 90º, uns minutos de teima e insistência depois já quase toca a ponta do nariz: E hoje, também, voltou a ocorrer-me o que já por diversas outras vezes dei comigo a pensar: se o mesmo poderá acontecer com a alma, se os seus limites poderão ceder com a mesma facilidade com que os do corpo cedem...
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